" Um domingo puseram-se a caminho logo de manhã; e, passando por Meudon,Bellevue, Suresnes, Auteuil, ao longo de todo o dia vagabundearam entre os vinhedos, arrancaram papoilas à beira dos campos, dormiram deitados na erva,beberam leite, comeram debaixo das acácias das casas de pasto e regressaram muito tarde, empoeirados,encantados.Repetiram frequentes vezes estes passeios, mas os dias seguintes eram tão tristes que acabaram por desistir.
A monotonia do escritório tornava-se-lhes odiosa.Sempre a raspadeira e a sandáraca,o mesmo tinteiro, as mesmas penas e os mesmo colegas! A estes, consideravam-nos estúpidos e falavam-lhes cada vez menos; o que lhes valeu más vontades.Chegavam todos os dias atrasados e foram alvo de admoestações.
Dantes sentiam-se quase felizes.Mas a sua profissão humilhava-os desde que se tinham em melhor conta; e reforçavam-se nesta repugnância, exaltavam-se mutuamente, eral indulgentes consigo mesmos.Pécuchet foi contagiado pela aspereza de maneiras de Bouvard,Bouvard contraiu algo da melancolia de Pécuchet.
- Apetecia-me ser saltimbancoo de praça pública! - Dizia um.
- Antes ser trapeiro - Exclamava outro.
Que situação abominável! E não havia maneira de saírem dali! Nem sequer esperança! "
'Bouvard e Pécuchet'
Gustave Flaubert
Edições Cotovia
Devaneios para esquecer sem perder.
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