(...)Chepilov trabalhava na Sibéria. O gosto pela ciência e pela solidão levara-o a estes lugares afastados. Era um homem que não suportava nem o barulho, nem as cores, nem os cheiros. (...) Ele próprio sofria de uma doença rara,que afectava o seu comportamento; não suportava qualquer contacto humano. Não gostava que lhe tocassem, que o ouvissem e, sobertudo, que o olhassem.
(...) A mania de Chepilov, o seu nojo pelo homem, o que poderíamos chamar de anti-humanismo,revelava-se em doenças de pele.Era alérgico à humanidade. Um olhar cobria-o de placas vermelhas,uma carícia de borbulhas, uma palavra amiga enchia-o de eczema. Fizeram exactamente o contrário, trataram-lhe a dermatose juntando-o a outras crianças,e obrgaram-no continuamente a tomar parte nos grupos de jogos.Por isso, ficou com uma autêntica cabeça de sapo. Quando garoto,Chepilov era extremamente feio; a pele escamosa e cheia de borbulhas, e quase sem cabelo aos doze anos. A mãe, enojada com o seu aspecto rupugnante, com a sua pele rugosa e doentia, meteu-o numa casa de reeducação. Foi aí que o pequeno tomou gosto pela leitura, única barreira contra a intromissão social. No estabelecimento de ensino,onde não dormia só e nunca por um instante usufruía da solidão, Dimitri habituou-se a ler para escapar à vida comunitária. Quando lia, tomava o aspecto radioso que mais tarde iria ser tão conveniente para os olhares capitalistas. Harmonioso, e por vezes sublime, aquele rosto mais parecia a imagem dum velho ícone.
'Países Tranquilos'
Rafaël Pividal
Devaneios para esquecer sem perder.
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